Avaliação do Monopólio

(Gonçalo) #1

É difícil falar sobre jogos de tabuleiro sem mencionar o Monopólio visto que é um dos jogos mais conhecidos do mundo. Quem não tem o jogo em casa quase de certeza conhecerá alguém que tem, o que prova que o Monopólio serve de certa forma como “embaixador” dos jogos de tabuleiro, algo que desperta fortes opiniões dentro dos entusiastas deste passatempo. Apesar de ser um dos jogos mais famosos, existem vários problemas com o jogo que abordamos usando a nossa estratégia do costume.

Contexto histórico:
Apesar de ter sido publicado originalmente em 1935 sobre o nome que hoje é reconhecido em qualquer lado, o Monopólio pode ser considerado uma iteração de um jogo anterior chamado The Landlord’s Game (jogo dos senhorios), conceptualizado em 1903. Desta forma podemos dizer que o Monopólio já existe há mais de 100 anos, pelo menos em espírito.

O jogo foi criado por Lizzie Magie com intuito de passar a mensagem sobre os efeitos negativos associados à posse de terras por parte de monopólios privados. O desenho do tabuleiro, conforme imaginado por Lizzie em 1904, não é assim tão diferente do tabuleiro atual:

O resto do conteúdo desta review foca-se na avaliação do jogo enquanto opção contemporânea, mas o contexto histórico do Monopólio também deve ser considerado. É bastante possível que o Monopólio tenha sido um percurtor de vários jogos de tabuleiros modernos que hoje adoramos – nesse sentido tem um valor histórico muito elevado. :slight_smile:

Descrição:

O Monopólio consiste num tabuleiro com várias propriedades e os jogadores, munidos de algumas notas de valor fictício, percorrem o tabuleiro em circuito, podendo aquirir propriedades durante o seu trajeto. Existem várias possibilidades de ganhar e gastar dinheiro no Monopólio, mas o objetivo do jogo é ser o último a ficar sem dinheiro, sendo assim considerado o vencedor. Este autêntico battle royale de tabuleiro deve ser o responsável por centenas de amuos e discussões familiares ao longo das últimas décadas… E os motivos vão tornar-se claros à medida que avançamos :smile:

Número de jogadores: :man::woman: 2-6 (melhor: 4) :woman: :man:

Comparado com jogos de tabuleiros modernos, as ações possíveis num dado turno de um jogo são algo limitadas. Para piorar esta situação, o Monopólio demora quase sempre mais que uma hora (quando os jogadores não desistem antes do fim). Para não ser um jogo demasiado pesado, se não houverem mais jogos para jogar então não recomendo que se jogue com mais de 4 pessoas.

:triangular_flag_on_post: O Monopólio tem eliminação de jogadores! Isto significa que um ou mais jogadores poderão sair muito antes do final do jogo, que nunca é bom num grupo de jogadores. Mais ainda, não existe nada que agarre os jogadores para ficarem por perto até ao fim… Talvez os perdedores possam encontrar algum consolo experimentando um jogo diferente. :slight_smile:

Tipo de Jogo: :muscle: Competitivo :muscle:

O Monopólio é competitivo. Repararam no negrito? No itálico?! E no sublinhado??
Este é daqueles jogos em que podem surgir conflitos! Relembro que o último a ficar sem dinheiro é o vencedor. Existem imensas coisas que os jogadores podem fazer para travar o avanço dos outros ou prejudicar o seu progresso. Aqui vão uns quantos exemplos:

  • Compra de propriedades da mesma cor: as propriedades no tabuleiro correspondem sempre a um grupo, normalmente identificado com uma cor. Os jogadores que tenham todas as propriedades do mesmo grupo podem depois aumentar o valor da renda das propriedades comprando casas ou hotéis. Isto faz com que exista alguma resistência na permuta de propriedades entre jogadores: se um jogador não quiser que outro jogador complete o grupo então não pode vender ou trocar propriedades de um grupo que o outro necessite… Excepto se a outra pessoa tiver algo que eu preciso :wink:
  • Compra de casas e hotéis: Existe um conjunto limitado de casas e hotéis disponíveis no jogo. Se um jogador tiver um ou mais grupos de propriedades, poderá comprar casas suficientes para impedir outros jogadores de fazer o mesmo e progredir para hotéis. Esta é uma das estratégias mais agressivas, e uma favorita pessoal.

Duração do jogo: :clock10: 60-240 min :clock10:

Conforme explicado na secção do número de jogadores, o Monopólio é um jogo bastante demorado, especialmente se os jogadores não forem rápidos a tomar decisões. E pior que decisões lentas são decisões erradas, como a adição de novas regras não oficiais, vulgarmente referidas como “house rules”. A adição destas regras (ex. mais dinheiro inicial, receber dinheiro na casa do estacionamento, etc) prejudica o equilíbro do jogo e aumenta ainda mais a duração dos jogos. Já esta semana a UNO confirmou a “ilegalidade” da famosa regra de acumular cartas +2 e +4… Falta agora a Hasbro dizer que a maior parte das regras não oficiais são proibidas :stuck_out_tongue:

Dependência da Língua: :no_mouth: Alguma :no_mouth:

Apesar do nome das propriedades ser a parte mais óbvia, existem ainda as cartas da Sorte e da Caixa Comunitária. É preciso pelo menos um jogador que consiga ler estas cartas – se houver um adulto no grupo, é provável que se consiga ler em inglês, espanhol e francês, mas em grupos mais novos poderá ser mais aconselhável a versão portuguesa.

Simplicidade das Regras: 6/10

A mecânica base do Monopólio envolve poucas regras, nenhuma delas demasiado complexa. É quando se entra na parte de leiloar e hipotecar propriedades e na derrota de jogadores que entram em jogo pormenores importantes. Eu considero que o Monopólio é digirido a uma audiência mais jovem (talvez porque eu tenha jogado o jogo em criança), e algumas destas regras são um pouco difíceis de entender e implementar, o que leva às famosas regras domésticas que já mencionei. Metade dos jogos em que joguei começavam com o dobro do dinheiro inicial, outros tantos faziam com que um jogador derrotado desse todo o seu dinheiro e propriedades ao dono da propriedade onde tinha calhado e ficado sem dinheiro, etc. Hoje em dia vejo que estas regras não fazem sentido e são desequilibradas, mas também houve multiplas ocasiões em que haviam pormenores omissos ou difíceis de entender no manual.

Versatilidade de Equipas: 3/10

Desta vez ficamos perto dos zero pontos na categoria e isso deve-se ao fator de conluio. Dois ou mais jogadores que concordem previamente em ajudar-se em troca de propriedades e a leiloar as propriedades certas estão praticamente garantidos a chegar ao final – isto faz com que o jogo seja desiquilibrado para os restantes que estejam a jogar sozinhos. No limite isto poderia acontecer com qualquer jogo competitivo, mas penso que no Monopólio isto é ampliado: o conluio pode envolver prejudicar um jogador e se isso acontecer é provável que seja bastante eficaz! Em grupos hiper-competitivos desaconselho particularmente este jogo, visto que pode causar conflitos…

Elemento Social: 2/10

O Monopólio é uma espécie de tributo ao capitalismo: onde os grandes cada vez ficam maiores e os pequenos e fracos são eliminados rapidamente. A título de exemplo: um jogador que pare em poucas propriedades na sua primeira volta ao tabuleiro (por azar) tem uma chance reduzida de ganhar o jogo.
Quando o jogo vai a meio e já há jogadores com casas, a pequena extorsão que acontece quando um jogador para na casa de outro cria animosidade em vez de momentos positivos. Não é, de todo, o que procuro quando decido jogar um jogo de tabuleiro.
Revisitando a questão da eliminação de jogadores: quando um jogador tem um jogo particularmente difícil no início e acaba por ser o primeiro a ser eliminado, é um momento de exclusão do grupo que não devia acontecer. Não se pode honestamente esperar que um jogador eliminado espere pacientemente entre 1-2 horas para que o jogo termine e o grupo possa jogar outro jogo. Talvez em 1904 o jogo fosse cativante o suficiente para agarrar os jogadores durante uma partida inteira, mas hoje em dia com o Instagram no telemóvel o que se está a fazer é separar um elemento do resto do grupo.

Conteúdo: 5/10

Não posso falar das novas versões do Monopólio que incluam dinheiro eletrónico, mas a versão anterior até tem alguma piada antes do jogo começar: folhear as notas e as cartas de propriedade coloridas é interessante, mas pergunto-me porque é que ainda se farão as cartas de propriedade sem cantos arredondados, que dobram mais facilmente, e porque é que o dinheiro não está impresso nos dois lados. Hoje em dia o mercado dos jogos de tabuleiro no que toca à arte e ao aspeto visual é tão competitivo que penso que quem abre uma caixa do Monopólio e fica contente com o que vê não tem muita experiência com jogos de tabuleiro.

Extensibilidade: 0/10

Há que ser honesto - o Monopólio é um jogo bastante auto-contido, não consigo imaginar grande extensão ao jogo que salvasse a pontuação final do jogo. Há várias razões que o colocam no lugar 17902 do ranking do BoardGameGeek, e não acredito que haja alguma expansão que consiga fazer com que o jogo suba consideravelmente.

Classificação final: :star: 1.8/5 :star:

Conclusões:

Esta é a primeira review com tom claramente negativo, no entanto, tentei ser objetivo nos meus argumentos em vez de me basear no que sinto pelo jogo. Na verdade, se seguisse meramente o que sentia, até poderia ter dado uma classificação mais alta, uma vez que tenho boas recordações de jogos que fiz (ex. acrescentar notas à minha pilha e à da minha irmã durante a pausa para almoço/lanche), mas estão mais relacionadas com a companhia que tive e com reações de pessoas do que propriamente associadas ao jogo em si.
Acontece que o Monopólio, dado o seu peso histórico, é hoje considerada a “porta de entrada” para os jogos de tabuleiro. Juntamente com outros clássicos que avaliarei com tempo, é uma das razões pelas quais há uma pré-disposição para dizer que os jogos de tabuleiros são aborrecidos, quando na verdade são muito mais que o Monopólio. Neste sentido, tenho de distinguir este jogo dos restantes que hoje adoro. E talvez um dia exista outro título tão famoso como o Monopólio que seja um melhor embaixador para os jogos de tabuleiro, tanto no mercado juvenil como para os mais crescidos.

3 Likes
(Tiago Santos) #2

Eu até gosto do facto do Monopólio ter eliminação de jogadores. Normalmente significa que meia hora depois já posso estar a fazer outra coisa. :slight_smile:

#3

O meu filho tem o Monopólio em casa e nunca joga. Se eu soubesse que era assim tão mau não tinha comprado

(Fred Fernandes) #4

Eu até gosto do monopoly só tenho pena de ninguem que eu conheço jogar como deve ser. Aquela coisa do Estacionamento Livre dar dinheiro que toda a gente usa esta errada, depois ninguem é obrigado a comprar as casas em que para tambem pode leiloar e apesar de não ser eu que leiluo muitas vezes podem-se comprar casas abaixo do preço que custam no tabuleiro. Tinha a versão normal desde que era pequeno e comprei a pouco tempo a versão do Sporting e a do Fortnaite e estou muito contente com o jogo.

(Guilherme Borges) #5

Não me lembro de alguma vez ter terminado um jogo de Monopólio :joy:

Dava muito jeito ter tido atenção às regras reais… Mas ainda estou para conhecer quem faça a dos “leilões”.

(Gonçalo) #6

Agora que penso nisso, já joguei muitos jogos até um ou dois jogadores terem perdido… Mas não me lembro de ter terminado um jogo :sweat_smile: